Estamos acostumados a imaginar o tempo como uma estrada de mão única. Atrás de nós, o passado. Sob nossos pés, o presente. À frente, um futuro ainda em branco. Mas talvez a realidade seja outra.
E se certos acontecimentos futuros pudessem deixar vestígios antes mesmo de acontecer?
E se alguns sonhos, intuições ou coincidências extremamente precisas fossem ecos de possibilidades que já existiriam à nossa frente, embora ainda não tenham acontecido para nós?
Talvez também sejamos influenciados por aquilo que ainda podemos nos tornar.
Essa é a hipótese perturbadora explorada por Romuald Leterrier, etnobotânico francês especialista em xamanismo amazônico, no livro Se souvenir du futur, escrito com o jornalista científico Jocelin Morisson.
A caçada que veio do futuro
Durante suas pesquisas na Amazônia peruana, Leterrier se hospeda com uma comunidade indígena para ampliar seus conhecimentos sobre plantas medicinais. Uma cerimônia com ayahuasca mudaria profundamente sua maneira de enxergar o tempo.
Ao lado de uma dezena de caçadores, ele entra numa espécie de visão coletiva. O grupo se desloca pela mata e chega perto de uma árvore de grande porte. Ali surge um pecari, animal parecido com um pequeno javali. Um dos caçadores o atinge com uma flecha. Mais adiante, aves aparecem e também são abatidas.
A cena tem a nitidez de algo físico: o percurso, os sons e os gestos de cada homem.
Uma semana depois, os mesmos caçadores o convidam para caçar de verdade. O grupo percorre uma parte da floresta que Leterrier afirma ainda não conhecer até chegar à árvore. Aquela mesma árvore da visão coletiva.
Pouco depois, um pecari surge e é abatido. Mais adiante, aves também aparecem exatamente onde ele se lembra de tê-las visto durante a cerimônia.
A realidade se torna muito parecida com a visão, com uma precisão desconcertante.
O tempo talvez não seja uma linha, mas uma trama de possibilidades.
O ímã do futuro
Aí surgem duas perguntas inevitáveis: aqueles homens conseguiram prever o futuro? Ou acessaram, durante o transe, uma cena que ainda estava por acontecer, entre todos os cenários possíveis?
A lógica convencional ensina-nos que a causa precede sempre o efeito: o passado molda o presente, e o presente constrói o amanhã.
A retrocausalidade propõe que, em determinadas circunstâncias, esse fluxo se inverte. Ou seja, um futuro possível se manifesta no presente, e como um ímã, atrai nosso caminho na sua direção.
O sonho do jaguar
Decidido a compreender melhor o fenômeno, Leterrier procura o xamã Ernesto e pede uma forma de testar essa possibilidade de maneira mais individual.
Para ilustrar o conceito, Ernesto propõe um exercício simples: retirar de um sonho uma imagem forte, carregada de emoção, estabelecer um prazo e observar se ela reaparece na realidade.
Na noite seguinte, Leterrier sonha com um jaguar de olhos vermelhos cuja pata repousa sobre uma pilha de moedas de ouro. Intrigado, registra o sonho em seu caderno e estabelece um prazo de três semanas para observar uma possível correspondência.
Duas semanas depois, precisa voltar à cidade. Sentado na traseira de um mototáxi, avista um outdoor com o jaguar do seu sonho, os mesmos olhos vermelhos e a mesma pata sobre o mesmo monte de moedas.
Perguntas desconfortáveis
Essa experiência abre perguntas desconfortáveis: seria possível mesmo puxar o futuro para o presente?
A leitura mais intuitiva seria pensar num sonho premonitório, como se Leterrier simplesmente tivesse visto antes aquilo que aconteceria depois.
A hipótese retrocausal propõe algo diferente. O sonho não prevê apenas o futuro. O próprio acontecimento futuro atua como causa na formação do sonho.
Quando Leterrier vê o jaguar no outdoor duas semanas depois e se lembra imediatamente da cena sonhada, esse momento futuro passa a ser ativado – nessa hipótese, como uma causa retroativa.
Ele influencia o passado e contribui para que a mesma imagem apareça no sonho ocorrido duas semanas antes.
A lógica se inverte: não é apenas o sonho que aponta para o futuro. O futuro também deixa sua marca no sonho.
Nem sempre somos empurrados pelo que fomos; às vezes somos atraídos pelo que podemos ser.
Tudo já está escrito?
Isso significaria que tudo já está decidido? Para Leterrier, não.
Se houvesse um único futuro e pudéssemos antecipá-lo, estaríamos lendo um roteiro pronto enquanto imaginamos estar improvisando. O livre-arbítrio praticamente desapareceria.
A proposta é outra. O futuro funciona como um conjunto de caminhos possíveis e não como um único trilho.
Você chega a um cruzamento, pode seguir reto ou virar e cada escolha modifica aquilo que vem a seguir.
Algumas dessas estradas futuras poderiam, segundo essa hipótese, deixar pequenos sinais antes mesmo de serem percorridas.
O tempo é um prato de espaguete
“Se você pudesse observar o tempo de fora, veria um prato de espaguete, onde as linhas temporais se entrelaçam”, explica Ernesto para ilustrar essa visão.
Em outras palavras, presente, passado e futuro não estariam completamente separados. Os fios se cruzam, se aproximam e se afastam. Vários percursos coexistem.
Nesse modelo, o futuro não precisa estar fixo para já possuir alguma forma de existência. Ele pode subsistir como um conjunto de possibilidades, algumas mais consistentes que outras.
As decisões que tomamos reforçariam certos caminhos enquanto outros perderiam força.
Menos elegante que uma equação, mas bem mais fácil de visualizar.
Sincronicidades ou vestígios do futuro?
É aqui que a ideia começa a tocar situações muito mais comuns.
Leterrier acrescenta uma pergunta antiga sobre as sincronicidades: e se algumas delas não fossem apenas encontros aleatórios entre acontecimentos presentes, mas rastros de um futuro possível?
Talvez uma intuição, um sonho, uma coincidência improvável ou uma sensação persistente de atração por determinado caminho não sejam apenas produtos do passado.
Talvez também sejamos puxados por aquilo que ainda podemos nos tornar.
Alguém se sente atraído durante anos por um lugar, uma profissão ou um projeto que não sabe explicar direito. Toma decisões pequenas e aparentemente soltas: aceita um convite, compra um livro por acaso, recusa uma proposta, muda de cidade.
Dez anos depois, olhando para trás, percebe uma sequência de eventos que parece ter conduzido exatamente até ali.
A explicação mais simples diz que construímos essa coerência depois, olhando para o que já aconteceu e organizando os fatos numa história que faça sentido. E de fato fazemos isso o tempo todo.
Leterrier acrescenta uma possibilidade: em alguns casos, o futuro talvez não espere passivamente a nossa chegada. Talvez algumas possibilidades futuras já estejam puxando, discretamente, certos fios do presente.
Uma explicação muito mais simples
Existe também uma explicação muito mais simples e racional para os dois episódios e ela não pode ser ignorada, ainda que ela retire boa parte do caráter extraordinário da hipótese retrocausal.
Animais seguem rotas, horários e hábitos. Um pecari pode passar regularmente próximo àquela árvore porque encontra alimento, água ou uma passagem habitual naquele ponto.
Os caçadores conhecem profundamente a floresta e sabem onde determinadas espécies costumam circular. O mesmo vale para as aves, que podem frequentar áreas específicas em determinados horários.
Nesse caso, a visão poderia simplesmente reproduzir um conhecimento acumulado pelos caçadores, consciente ou inconsciente, sobre o comportamento dos animais.
No caso do jaguar, talvez Leterrier já tivesse passado diante daquele outdoor ao chegar à região ou visto a imagem em algum outro lugar sem prestar atenção consciente. Nosso cérebro registra muito mais informação do que conseguimos recuperar voluntariamente.
A imagem poderia ter ficado armazenada e reaparecido durante o sonho para depois ser reconhecida quando ele viu novamente o anúncio.
Uma certeza absoluta pode ser apenas uma hipótese que parou de ser questionada.
Ligando os pontos
Nesses cenários, o tempo continua perfeitamente linear. Um único espaguete, sem o prato.
Mas a pergunta permanece: e se Leterrier tiver colocado o dedo sobre um aspecto do tempo que nossa maneira linear de pensar simplesmente não consegue enxergar?
Alguém se sente atraído durante anos por um lugar, uma profissão ou um projeto que não sabe explicar direito. Toma decisões pequenas e aparentemente soltas: aceita um convite, compra um livro por acaso, recusa uma proposta, muda de cidade.
Dez anos depois, ao rever o caminho percorrido, percebe uma sequência de eventos que parece apontar para aquele destino desde o início. Mas talvez essa ordem só exista depois: olhamos para o passado, conectamos os pontos e damos sentido ao que, na época, parecia apenas uma sucessão de acontecimentos.
Leterrier acrescenta uma possibilidade: em alguns casos, o futuro talvez não espere passivamente a nossa chegada. Talvez algumas possibilidades futuras já estejam puxando, discretamente, certos fios do presente.
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